A cruzada

Nota do Blog

Este artigo foi publicado em 1951 na revista Catolicismo, no seu número 1, para delinear o que seria a visão editorial da revista que ainda hoje é publicada e continua com o mesmo espírito do seu idealizador, Plínio Corrêa de Oliveira. O artigo evoca o espírito dos cruzados que se lançaram na epopeia das Cruzadas para libertar o Santo Sepulcro de Cristo, nosso Redentor, das mãos dos infiéis.

Esse espírito de Cruzado — de reconquista e de reconstrução da civilização cristã — marcou os sessenta anos de vida pública do professor Plinio Corrêa de Oliveira. Inspirados por essa visão, seguimos rezando e lutando pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria e pela restauração dos valores da Civilização Cristã.

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Gustave Doré: o entusiasmo dos Cruzados ao avistarem Jerusalém pela primeira vez

A Cruzada

Na Idade Média, os cruzados derramaram seu sangue para libertar das mãos dos infiéis o Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo, instituindo um Reino Cristão na Terra Santa.

Hoje, corre novamente o sangue dos filhos da Igreja — na Hungria, Polônia, Checoslováquia e China. Para quê? Para libertar a Cristandade do jugo do anticristo comunista e restaurar no mundo o Reino de Cristo. Mas o que é esse Reino, ideal supremo dos católicos e meta desta folha?

O Reino de Cristo

A Igreja Católica foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para perpetuar entre os homens os benefícios da Redenção. Sua finalidade se identifica com a da própria Redenção: expiar os pecados pelos méritos infinitos do Homem-Deus, restituir a glória divina ofendida e abrir aos homens as portas do Céu.

Essa finalidade se realiza no plano sobrenatural, visando à vida eterna. Como afirmou Nosso Senhor: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36).

A vida terrena, contudo, é o caminho para a vida eterna. O Reino de Cristo não é deste mundo, mas é neste mundo que se percorre o caminho até Ele.

Assim como a Escola Militar prepara o soldado, e o noviciado prepara o religioso, a terra é o noviciado do Céu.

A alma humana, criada à imagem de Deus, possui aptidões naturais para o bem, aperfeiçoadas pelo Batismo com a graça sobrenatural. Desenvolver essas aptidões é tornar-se semelhante a Deus — e a semelhança é a fonte do amor.

A vida terrena, portanto, prepara nossa alma para ver a Deus e amá-Lo eternamente.

A Igreja como antecipação do Céu

A Igreja Católica é já, neste mundo, uma antecipação do Céu. Por isso, tudo quanto o Evangelho descreve sobre o Reino dos Céus pode ser aplicado à Igreja, à Fé e às virtudes que ela nos ensina.

Cristo Rei

Cristo é Rei antes de tudo de modo sobrenatural. Mas sua realeza já se exerce na terra por meio das almas que obedecem às Suas leis.

O Reino de Cristo se torna efetivo quando os homens — individual e socialmente — moldam suas ações, instituições, leis e costumes conforme a Lei de Cristo.

Mesmo nos períodos históricos de maior esplendor cristão, como o século XIII, este Reino terreno é apenas preparação para o Reino eterno.

Ordem, Harmonia e Paz

A ordem, a harmonia e a paz caracterizam tanto a alma bem formada quanto a sociedade reta. A ordem é a disposição das coisas conforme sua natureza e seu fim. A harmonia é a relação correta entre os seres segundo essa ordem. A paz é a tranquilidade da ordem.

O homem alcança sua perfeição quando suas ações seguem sua natureza e tendem ao seu fim sobrenatural. Para isso, a posse da verdade religiosa é essencial.

A Perfeição Cristã

O Evangelho nos dá um ideal sublime: "Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48). Cristo é o modelo dessa perfeição. Suas virtudes, ações e ensinamentos são o ideal para todo homem.

As regras dessa perfeição estão na Lei de Deus, nos preceitos e conselhos evangélicos e no ensinamento infalível da Igreja. A fidelidade ao Magistério é condição para a verdadeira santidade.

Assim viveram os Santos, que imitaram Cristo heroicamente. Até Voltaire reconheceu a sublimidade de São Luís, Rei de França: "Não é possível ao homem levar mais longe a virtude."

Natureza, Lei e Graça

Deus é autor de nossa natureza; por isso, Seus mandamentos estão em conformidade com a reta razão. O pecado, porém, desordenou o homem. A graça é necessária para conhecer e praticar plenamente o bem. Deus oferece graça suficiente a todos para se salvarem.

O Ideal Cristão da Sociedade

Uma sociedade formada por bons católicos teria como frutos a ordem, a paz e a perfeição social. Santo Agostinho descreve maravilhosamente como seria uma sociedade inteiramente cristã — e conclui que ela é a maior salvaguarda do Estado.

Se todos os homens observassem a Lei de Deus, todos os problemas sociais, econômicos e políticos encontrariam solução.

A Civilização Cristã

Leão XIII ensinou que, após a Redenção, a humanidade despertou para a luz da verdade e para sua dignidade superior, transformando-se profundamente. Esta nova ordem histórica recebeu o nome de Civilização Cristã.

A cultura cristã, filha da Igreja, moldou costumes, leis, instituições, arte e literatura. Uma civilização é verdadeira quando repousa sobre a moral e a religião verdadeira — como ensinou São Pio X.

A Igreja forma povos e civilizações

A ação da Igreja não é apenas individual. Deus nos criou sociáveis e influenciáveis. Assim, a Igreja molda não apenas almas, mas também sociedades inteiras, formando culturas e civilizações cristãs.

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