O Primeiro Princípio da Corredenção de Maria

Nota do dicastério sobre títulos de Maria
Imaculado Coração de Maria 


Uma análise teológica, doutrinal e tradicional sobre o papel singular da Santíssima Virgem na obra da Redenção.

1. A liberdade divina na obra da Redenção

É evidente que Deus gozava de plena liberdade para determinar o modo e o meio pelos quais iria realizar a libertação do gênero humano após o pecado original. Ele poderia simplesmente perdoar a humanidade pela sua infinita misericórdia. Entretanto, a justiça infinita exigiu que fosse pago um resgate.

Esse resgate poderia ter sido realizado de diversas maneiras. Deus poderia criar um novo Adão do limo da terra e unir-se hipostaticamente a esse ser para que ele pagasse a dívida da humanidade. Contudo, Ele preferiu que fosse um descendente de Adão. Assim, por um único decreto, Deus estabeleceu não somente a Encarnação, mas também a predestinação da Santíssima Virgem para ser sua Mãe.

2. A preparação de Maria para ser a Mãe de Deus

Convinha que, em previsão dos méritos do Redentor — perfeitíssimo e autor de toda a santidade — a Virgem Santíssima fosse preservada imune de toda a mancha do pecado original. Desde o primeiro instante de sua concepção, Maria foi enriquecida com graças e dons acima dos anjos e de todos os santos, tornando-se digna de ser Mãe de Deus, Filha do Pai e Santuário do Espírito Santo.

O Verbo de Deus, podendo escolher sua própria Mãe, escolheu a melhor de todas e revestiu-a com privilégios incomparáveis. Ele quis assumir a natureza humana vindo de uma mulher. Por quê? Porque, assim como por uma mulher — Eva — veio a morte, também por uma mulher viria a vida.

3. O consentimento de Maria e sua participação na Redenção

Deus não realizou esse desígnio sem antes receber o consentimento livre de Maria. Pela sua aceitação, Nossa Senhora tornou-se não apenas Mãe de Jesus — único mediador e redentor divino — mas também, com Ele e sob Ele, associou sua ação à obra da redenção do gênero humano.

O Fiat de Maria tornou-se parte integrante da economia da salvação. Seu consentimento salvífico perdurou desde a concepção virginal de Cristo até a sua morte na Cruz. Ela acompanhou o Filho em toda a sua vida terrena e brilhou com especial intensidade ao permanecer de pé junto à Cruz, a Mater Dolorosa, oferecendo-O como preço da nossa redenção.

4. O sacrifício de Cristo e a cooblação de Maria

O Padre Gabriele Roschini, fundador da Pontifícia Faculdade Marianum, afirma que Cristo, primeiramente — por prioridade lógica — ofereceu-se ao Pai em sacrifício pela redenção preservadora de Maria. Depois, unindo a cooblação de Maria, ofereceu-se pela redenção libertadora de toda a humanidade.

Assim, o sacrifício de Cristo possui dois aspectos:

  • Redenção preservadora de Maria;
  • Redenção libertadora de toda a humanidade, com participação de Maria.

O Padre Faber comenta que a maior dor de Maria foi saber que Jesus sofria especialmente por Ela, por ser a maior beneficiária da Redenção.

5. Como Maria cooperou nas três dimensões da Redenção

Santo Tomás de Aquino ensina que Cristo nos redimiu de três modos: por satisfação, por mérito e por sacrifício. Nossa Senhora cooperou subordinadamente com Ele nessas três dimensões.

São Pio X, na encíclica Ad Diem Illum (1904), afirma:

“Maria foi associada por Cristo à obra de nossa salvação. Ela merece para nós de congruo o que Cristo merece de condigno.”

Isso significa que Maria merece por pura condescendência divina o que Cristo merece por estrita justiça.

6. A Mediação Universal de Maria

Se Maria foi associada à Encarnação, à Redenção e à vida de Cristo, é lógico que também participe da intercessão celeste. Cristo adquiriu todas as graças na Cruz; Maria colaborou nessa aquisição. Portanto, é coerente que Ela participe também da distribuição dessas graças.

Assim, em toda comunicação de graças, manifesta-se a caridade maternal de Maria, razão pela qual é invocada como Medianeira e Dispensadora universal das graças.

Essa mediação de modo algum obscurece a única mediação de Cristo; ao contrário, dela depende e para ela aponta. Cristo é mediador por natureza. Maria, por participação.

Conclusão

Por seus títulos de Corredentora e Medianeira, Nossa Senhora ocupa o centro vital da Igreja, como seu modelo perfeito e, sobretudo, como sua Mãe.

A doutrina da Corredenção de Maria não diminui Cristo, mas evidencia a profundidade do plano divino: um Deus que quis associar uma criatura perfeitamente pura à obra da salvação, tornando-a a nova Eva ao lado do novo Adão.

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